25 de jun de 2008

Ruth Cardoso: Uma Mulher de luz própria

Criticar os vivos e exaltar os mortos sempre foi uma tônica do ser humano. A morte serve para calar a arrogância, acabar com as vaidades, silenciar a impetuosidade, e acima de tudo, exaltar as qualidades quando elas realmente existem. Com a morte cessa as atividades do ser humano em si, não a sua obra, principalmente, quando a sua obra é de relevância para o ser humano.

O único ser perfeito é Deus, por isso, Ele é intangível. Os mortais são imperfeitos, ou melhor, são seres em busca de perfeição, e buscando a perfeição, tentam se aproximarem de Deus. Por não sermos deuses, somos chamados de mortais, e através da morte, somos todos iguais. Depois da morte a obra humana vem à tona, ou seja, ela é mostrada assim como ela é e não como o seu autor gostaria que fosse. A morte é o despir das vaidades e a revelação das verdades.

A senhora Ruth Correa Leite Cardoso, mais conhecida como ex-primeira-dama Ruth Cardoso, uma Doutora em Antropologia que não usava o pomposo pronome de tratamento doutora. Uma mulher culta, que falava vários idiomas, que lecionou em universidades brasileiras, chilenas, francesas e americanas. Uma mulher muito a frente do seu tempo, que escolheu os estudos e trabalhos à acomodação e a fama, tão em voga em sua época.

A quem a critique, pois, como primeira-dama, e dada a sua enorme formação, o seu legado foi muito pequeno. A sua criação “A Comunidade Solidária” foi o embrião de muita coisa que hoje é exaltado por ai. A principal obra de da Doutora Ruth Cardoso não foi a sua discreta passagem como primeira-dama, aliás, antes de ser primeira-dama, ela foi uma intelectual, num país que pouco valoriza os seus intelectuais, sim, o a sua maior obra foi o legado à Antropologia Brasileira. Ruth foi uma das poucas primeiras-damas que não necessitou da luz do marido Chefe de Estado e de Governo para fazer brilhar a sua. Ela possuía a sua própria luz acesa na fogueira do estudo e do trabalho. Ela exerceu a sua grandeza com muita simplicidade, sem alardes, assim como fizeram os grandes intelectuais que serviram à humanidade.

Roberto Pelegrino

Publicado no Recanto das Letras em 24/06/2008
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